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Como o governo Trump pode influenciar a economia brasileira

Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos

Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos (Getty Images)

Preocupa nossos empresários e líderes os efeitos deletérios das promessas (ou ameaças, conforme o ponto de vista) feitas pelo candidato republicano durante a disputa pela Casa Branca – ainda que muitos deles preguem relativização e calma em suas análises. Trump candidato seria um, Trump presidente seria outro. Vejamos.

Em 21 de novembro, quase duas semanas depois de eleito, Trump declarou que no primeiro dia de seu governo (20 de janeiro) vai retirar o país da Parceria Transpacífico (TPP), principal iniciativa voltada ao comércio internacional costurada por Barack Obama e assinada em outubro de 2015 por Canadá, México, Peru, Chile, Japão, Cingapura, Vietnã, Malásia, Brunei, Austrália e Nova Zelândia, além dos EUA. Juntos, esses países respondem por 40% do PIB mundial. Sem os EUA, a TPP não faz sentido, como declarou de imediato o governo japonês. Trump tem afirmado que vai priorizar “tratados bilaterais que geram empregos e vantagens” para seu país.

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Para a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), abandonar o TPP, assim como o Acordo Climático assinado em Paris, serão dois grandes erros estratégicos. O primeiro porque abriria mais espaço para o domínio da China na Ásia, região que mais cresce no mundo; o segundo porque os investimentos em inovação, tecnologias limpas e sustentabilidade já são um pilar da recuperação econômica global.

PIOR CENÁRIO

No mesmo dia em que Trump anunciou a saída do TPP, o Washington Post publicou reportagem com o título “Pior cenário para a economia sob Trump acabou de acontecer em outro país”. Esse país é o Brasil. “Mais que a plataforma de qualquer outro político americano, a agenda de Trump para a economia lembra a de políticos populistas lá fora. As políticas que ele propõe são muito similares às de Dilma Rousseff ”, escreve o jornalista Max Ehrenfreund.

O Washington Post cita a brasileira Monica de Bolle, professora na Universidade Johns Hopkins, ao comparar os planos de Trump com as ações de Dilma – restrições a importações, alívio fiscal para grandes corporações e vultosos empréstimos federais. Essa receita seria danosa para a economia norte-americana e, por via indireta, novamente danosa para a brasileira.

“A despeito de como se formará a administração Trump e de quais serão seus rumos econômicos, algo parece certo: não há qualquer cenário que beneficie o Brasil. É possível vislumbrar os EUA crescendo pouco, com mais inflação. Esse quadro não propele a economia mundial e, de quebra, desarranja ainda mais os países emergentes”, diz De Bolle em artigo publicado no site do Instituto Millenium (organização formada por intelectuais e empresários).

Carlos Thadeu Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e ex-diretor do Banco Central, analisa: “Considerando a hipótese do cenário de juros mais elevados nos EUA devido aos maiores gastos do governo, as expectativas cambiais no Brasil passam a envolver maiores riscos. A administração da política monetária pelo governo brasileiro vai se tornar mais difícil e exigente”.

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Além disso, ressalta ele, o comércio varejista vem sofrendo perdas desde o fim de 2014, e “não há perspectivas de melhora no curto prazo, mesmo com a evolução positiva da confiança nos meses mais recentes”.

Para a Fiesp, a incerteza quanto aos rumos da política norte-americana e a volatilidade dos mercados financeiros e da taxa de câmbio afetarão os negócios, sobretudo as decisões de investimento mais estratégicas. “Isso não é bom para o Brasil, que vinha num processo lento de recuperação econômica e de retomada das exportações, puxada justamente pela venda de manufaturados para os EUA”, afirma Thomaz Zanotto, diretor titular do departamento de relações internacionais da federação.

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Em encontro de lideranças na Câmara Americana de Comércio (Amcham) que discutia o futuro da relação entre os dois países, Peter Hakim, presidente emérito do The Dialogue – Leadership for the Americas (ONG que aglutina líderes do continente e que tem em seu quadro nomes como Fernando Henrique Cardoso e Jimmy Carter), disse que o México deve se preocupar mais que o Brasil. “O foco de Trump será a política doméstica e o Nafta, que carrega a fama de ter destruído a indústria americana”, declarou.

DEPENDE DE NÓS

Mario Garnero, chairman do Grupo Garnero, presidente do Fórum das Américas e colunista de FORBES, não vê grande ameaça do “fator Trump” à economia brasileira. “Diziam que a eleição de Ronald Reagan iria destruir o mundo. E ele acabou sendo um bom presidente”, lembra. “Trump é muito pragmático, o que não der certo ele vai modificar”, afirma o empresário. Garnero fala com conhecimento de causa – ele e o bilionário norte-americano se conheceram pessoalmente há alguns anos em Nova York para discutir a possibilidade de parceria em empreendimentos no Brasil.

O ex-ator Ronald Reagan foi eleito em 1980 (Getty Images)

O ex-ator Ronald Reagan foi eleito em 1980 (Getty Images)

Não significa que devemos ficar de braços cruzados: “Temos que sair do terreno emocional e partir para a prática. Nosso poder de influenciar políticas mundiais, de uns anos para cá, está cada vez menor. As exportações variam ao sabor da flutuação do dólar. Precisamos primeiro arrumar nossa casa”, conclui Garnero.

O ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira, afirma que a mais preocupante das medidas de Trump é o aumento de barreiras para produtos importados. “Percebi essa preocupação já na reunião de ministros do G-20 em julho, em Xangai, e no encontro dos Brics em outubro, na Índia. Mas não há dúvida: quando a maior potência mundial passa a lidar com o tema de forma mais premente, esse movimento tende a mexer na estrutura mundial de comércio.”

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E o que devemos fazer? “O Brasil pode aproveitar a oportunidade para rediscutir sua política industrial e se reposicionar no comércio internacional”, sugere o ministro. “Temos reaberto o diálogo com países que tínhamos deixamos de lado e estamos estudando potenciais acordos, como com o Canadá.”

Zanotto, da Fiesp, ressalta o fato de que grande parte do comércio com os EUA é intercompany, entre empresas multinacionais presentes nos dois países. “Essas corporações têm estratégias de longo prazo que não vão cessar do dia para a noite. Por esse lado, o mais importante para o Brasil é se tornar mais competitivo.”

SOB CONTROLE

Se Mario Garnero lembrou o nervosismo causado pela eleição de Ronald Reagan, o ministro Marcos Pereira cita a ascensão de Lula ao Planalto: “O clima de desconfiança com Donald Trump é semelhante ao sentimento em relação a Lula, em 2002”. Para ele, talvez essa apreensão não se justifique. “A equipe que o presidente eleito está formando me parece muito competente e sóbria. Essa volatilidade pode ter prazo de validade.”

Em sentido horário: Thomaz Zanotto, Liliana Ayalde, Marcos Pereira e Carlos Gomes (Everton Amaro/Getty Images/Agência Brasil/Carolina Braga)

Em sentido horário: Thomaz Zanotto, Liliana Ayalde, Marcos Pereira e Carlos Gomes (Everton Amaro/Getty Images/Agência Brasil/Carolina Braga)

Para a Confederação do Comércio, a condução mais expansionista da política fiscal nos EUA nos próximos anos poderá impactar no aumento dos preços das commodities e beneficiar o Brasil na balança comercial. “Se nossas reformas fiscais forem aceleradas, teremos uma recuperação mais rápida da atividade do comércio no país”, afirma Carlos Gomes.

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A despeito das recentes declarações sobre a TPP, o próprio Trump admitiu que exagerou na retórica para mobilizar o eleitorado. “Isso sugere que ele irá negociar melhores condições com seus principais parceiros, mas sem colocar tudo a perder. Os interesses econômicos são muito fortes. Só com Canadá e México, membros do Nafta, a corrente de comércio dos EUA ultrapassa US$ 1,1 trilhão”, lembra Zanotto, da Fiesp.

OTIMISMO

A embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Liliana Ayalde, tentou transmitir otimismo aos leitores de FORBES: “Nossa relação vai muito além de uma pessoa. São muitas transições [a eleição norte-americana e o impeachment de Dilma Rousseff ], e toda troca gera dúvidas e tensões. Quando cheguei aqui, o clima também estava tenso com o caso Snowden [ex-técnico da CIA acusado de espionar a presidente brasileira, em 2013]. No momento certo, isso passou. Os laços que compartilhamos prevaleceram. Divergências surgirão, mas serão solucionadas”.

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