Carla Bolla: Como nasceu o costume de brindar

Getty Images/Klaus Vedfelt
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Os romanos acreditavam que, ao bater um copo no outro, os eventuais venenos se depositariam no fundo das taças

O ato de brindar para celebrar um evento ou homenagear alguém especial vem desde a época em que gregos e romanos erguiam suas taças de vinho, como uma oferenda simbólica aos deuses. Os romanos iam além durante esse momento de comemoração: derramavam um pouco da bebida no chão. Pensavam que, assim, conseguiriam saciar a sede das divindades. No Brasil, acontece um comportamento semelhante, com o costume de dar um gole de cachaça “pro santo”.

Os brindes tinham o poder de selar o término dos conflitos. Cabia ao vencedor sempre dar o primeiro gole – dessa forma, provava que não estava com segundas intenções de envenenar o adversário. Os romanos acreditavam que, ao bater um copo no outro, os eventuais venenos se depositariam no fundo das taças. A exclamação “Saúde”, que geralmente acompanha os brindes entre sorrisos e olhares nos olhos, pode também ter surgido na Grécia antiga, como uma indicação que a bebida estava tão boa a ponto de não oferecer perigo de intoxicação.

Outra narrativa utilizada para explicar a origem do brinde vem de Dionísio, o Deus do Vinho na Grécia antiga: o barulho do tilintar das taças era uma forma de ativar a audição e tornar a apreciação do vinho uma experiência sensorial completa.

Mas nem tudo nessa vida se explica pela devoção aos deuses. No século XVII, durante o reinado de Luís XIV, Henriqueta Stuart da Inglaterra, amante do rei, morreu pouco tempo depois de ter tomado um copo de água com chicória. A suspeita de que o envenenamento havia sido provocado por pessoas contrárias à aliança entre França e Inglaterra deu origem ao que ficou conhecido como o Affaire des Poisons.

Descobriu-se que vários membros da corte estavam envolvidos em diversos assassinatos tendo como mentora a maior especialista da época em artes ocultas e magia negra, Catherine Deshayes (1640-1680). Nascida em uma família humilde, começou cedo, aos 9 anos, a se introduzir na quiromancia, leitura de rosto e astrologia. Aos 20, após o casamento com um joalheiro que não se deu bem na vida, precisou se virar para garantir o sustento da família. O preparo de poções afrodisíacas e amuletos a inseriu na alta roda da aristocracia parisiense.

Aos poucos, viu que teria bons lucros com o preparo de venenos. Catherine contava com uma rede de apoio: alquimistas, bruxos e padres de missas negras. Ela recebeu o apelido de La Voisin (a vizinha) depois de transformar uma cabana nos arredores de Paris em base para o preparo das poções mágicas.

Seus clientes eram famosos membros da corte e da Igreja. Mas o escândalo foi além: a filha de Catherine contou que a mãe fornecia porções mágicas para Madame de Montespan, amante preferida do rei e mãe de seus quatro filhos que, enciumada, havia encomendado a morte de Louis XIV e de uma outra amante. O plano não teve sucesso porque La Voisin foi presa e condenada a ser queimada viva na fogueira – o alto número de mortes naturais na nobreza francesa fechou o cerco em torno de Catherine. Todos os envolvidos foram presos e Montespan foi exilada de Versalhes.

Por causa dessa história, e com a introdução do champagne na corte de Louis X V, criou-se o hábito do brinde: a pessoa olhava fixamente nos olhos de quem havia servido a bebida, batia seu copo de estanho com força no outro para provocar uma troca de gotas de líquido e dizia “Saúde”. Seja para comemorar vitórias ou saudar divindades, o brinde está incorporado em nossas vidas como sinônimo de boas vibrações.

TIM-TIM!

Carla Bolla é Restauratrice do La Tambouille, em São Paulo

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