Steve Forbes: A relação entre EUA e Alemanha está em risco?

Michael M. Santiago/Getty Images
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A Alemanha vem se recusando a trabalhar em colaboração com Washington para impedir que tecnologias estratégicas caiam nas mãos de Pequim

A Alemanha, quarta maior economia do mundo e nação mais poderosa da Europa, parece estar se afastando de sua estreita parceria com os Estados Unidos. Essa ligação foi fundamental para vencer a Guerra Fria contra a outrora colossal União Soviética.

Essa é uma boa notícia para a China e para a Rússia de Vladimir Putin e uma má notícia para o mundo livre. A título de exemplo, durante o longevo governo da chanceler Angela Merkel, em vez de tornar os EUA um fornecedor importante, a Alemanha fez de tudo, obstinadamente, para ver a conclusão do gasoduto Nord Stream 2, que aumentaria enormemente a dependência de gás natural russo por parte da Europa. Putin não tem hesitado em usar o gás natural russo como arma política. A alternativa mais lógica e sensata seria importar mais gás natural norte-americano, que o país tem em abundância, bem como robustecer suas forças armadas com o intuito de se opor à ambição de Moscou de desviar a Europa de seus laços estreitos com Washington.

Ao contrário da Suécia, que vem aumentando drasticamente o poder de suas forças armadas em virtude dos movimentos agressivos da Rússia, a Alemanha tem sido mais hesitante em reabilitar seus miseráveis serviços armados. A intensa pressão do governo Trump até fez com que Berlim aumentasse os gastos militares, mas a relutância alemã permanece significativa – e pode enfraquecer se o presidente Biden não continuar incitando os alemães à moda de Trump.

Outro movimento que não traz bons presságios é a recente promoção, pela Alemanha, de um acordo de investimentos entre a China e a União Europeia, o qual Pequim vê como uma forma de afrouxar os laços entre os EUA e a Europa.

Até agora, a Alemanha vem se recusando a trabalhar em estreita colaboração com Washington para impedir que tecnologias estratégicas caiam nas mãos de Pequim, o que contrasta com sua abordagem referente à União Soviética durante a Guerra Fria.

A Alemanha tem essa atitude mesmo considerando-se que a China continua a perpetrar enormes violações de direitos humanos e mantém sua política externa bastante agressiva, como a tentativa de dominar o Mar da China Meridional, uma crucial via navegável internacional. Merkel parece, na verdade, ter a intenção de manter certa distância entre Washington e Pequim.

Durante a Guerra Fria, apesar das diferenças esporádicas, a aliança da Otan, com a Alemanha e os EUA no centro, manteve-se firme, independentemente dos partidos políticos que estivessem no poder. Um exemplo básico foi o trabalho conjunto dos dois países para combater as tentativas de Moscou de chantagear a Alemanha para afrouxar seus laços transatlânticos, ameaçando-a com mísseis nucleares de curto alcance no início dos anos 1980.

O governo Biden tem a grande tarefa de fazer a Alemanha perceber que uma cooperação estreita em todas as áreas continua sendo absolutamente crucial para preservar a democracia e a segurança do mundo livre em face das crescentes pressões da China e da Rússia.

Criptomoedas: a criptonita da inflação

Tomando por base todo o papo alto-astral que vem do Federal Reserve e de outros bancos centrais pelo mundo, você não teria como saber, mas a inflação é uma ameaça iminente em vários países. Os governos, incluindo o dos Estados Unidos, estão gastando dinheiro em escala inédita desde a Segunda Guerra Mundial, e a maior parte disso está sendo financiada pela impressão de imensas quantias de dinheiro. É a fórmula básica para impulsionar a inflação e aumentar as taxas de juros.

O que se pode fazer? Surpreendentemente, a solução pode vir da América La-tina, que tem sido cronicamente um foco de inflação debilitante. Pode surgir uma nova criptomoeda que acabará sendo usada no mundo todo.

Veja a Argentina, a terceira maior economia da região, que destruiu sua moeda inúmeras vezes. O país está dominado hoje por outra inflação terrível, com os preços subindo à taxa de 50% ao ano. Há um bom tempo, observadores astutos, argentinos ou não, defendem que a Argentina se livre de seu peso, tão violentado, e torne o dólar americano sua moeda oficial. Algumas nações latino-americanas menores – Equador, Panamá e El Salvador – dolarizaram sua economia. Os políticos odeiam, mas os eleitores adoram. Por motivos nacionalistas, os políticos argentinos nunca dolarizariam sua economia. No entanto, o fato é que o dólar é a moeda não oficial das transações no país, assim como já é na Venezuela, severamente açoitada pela inflação.

Agora temos a oportunidade de fazer uma das maiores revoluções monetárias da história, criando uma criptomoeda vinculada, neste caso, ao dólar, que possa ser usada facilmente em transações diárias e contratos de longo prazo, como hipotecas, pagamentos de carros ou títulos. Infelizmente, a maioria dos criadores de criptomoedas acha que o sucesso é uma moeda capaz de aumentar rapidamente de preço, como aconteceu com o Bitcoin e outras no ano passado. Essas criptomoedas são, em sua maioria, brinquedos especulativos ou uma maneira de transferir dinheiro rapidamente, evitando os olhares indiscretos do governo.

Contudo, a crise pode muito bem fazer com que criptoempreendedores da Argentina e de outras partes criem uma moeda digital que realmente substitua o dinheiro dos governos. E, se o próprio dólar dos Estados Unidos vacilar demais e a inflação disparar, o que tem razoável probabilidade de acontecer, o mesmo espírito empreendedor pode finalmente dar às pessoas uma alternativa utilizável ao dólar, que seria atrelada ao ouro ou ao franco suíço. Washington revidará ferozmente, criando, inclusive, seu próprio dólar digital. Porém, considerando-se o que é tomado como sabedoria econômica hoje em dia, essa versão de alta tecnologia do dólar do Tio Sam não será melhor do que a versão em papel. Parece que as criptomoedas poderão ser mesmo a criptonita das moedas governamentais.

Steve Forbes é editor-chefe da Forbes

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