Bordeaux: margem direita e esquerda

samael334/Getty Images
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Vinhedo em Saint-Émilion, na região de Bordeaux na França: aqui, na margem direita do rio Dordogne, reina o Merlot

Bordeaux é uma das regiões de produção de vinho mais famosas do mundo! São produzidas 20 milhões de caixas de vinho, em que a maioria é AOC Bordeaux, uma classificação genérica usada para qualquer vinho que seja produzido com uvas desta região. Ao mesmo tempo é intimidante, com uma classificação específica e de Chateaux tão magníficos que nos faz pensar em briga de tubarões.

Para não nos sentirmos apenas peixinhos, algumas informações são importantes, afinal, a autoridade intelectual pode ser sempre uma carta na manga para a autoestima e desenvolvimento pessoal de interesses.

Por que margem esquerda e direita?

O rio Gironde desce do Norte num formato de Y de cabeça pra baixo e se divide entre Dordogne e Garonne. Gironde, lá em cima no Norte, tem sua fonte nos Pirineus, na Espanha. A margem esquerda começa com Médoc e segue ao sul com Haut-Médoc, Saint-Estèphe, Paulliac, Saint Julien, Listrac-Médoc, Moulis e quando chega em Margaux é onde começa a divisão do Gironde em Garonne, do lado esquerdo, e Dordogne do lado direito.

Os dois rios cruzam toda Bordeaux e entre os dois, Libourne ou Entre-Deux-Mers, a região dos tintos leves, brancos secos e doces.

Quando começa o Garonne, bem na região de Margaux, tem ainda um pedaço de Haut-Médoc e entramos em Graves, onde se encontra vinho tinto e branco. Pessac-Léognan, apelação Graves, Cérons, Barsac, Sauternes, Bordeaux Supérieur e Bordeaux AC.

Na margem direita, separada pelo Dordogne, temos Pomerol (Pomerol e Lalande-de-Pomerol), Fronsac (Canon Fronsac e Fronsac) e Saint Émilion: Montagne Saint-Émilion, Saint-Georges-Saint-Émilion, Lussac-Saint-Émilion, Puisseguin-Saint-Émilion e Saint-Émilion.

Não é curioso que Bordeaux produz somente 1,5% de toda a produção anual do mundo?

Para quem investe em Bordeaux é imprescindível saber alguns detalhes. A margem esquerda tem a uva Cabernet Sauvignon, predominante, que dá mais corpo para o vinho com taninos mais potentes. O potencial de envelhecimento é maior, não sendo, especificamente melhor que a margem direita. A margem esquerda possui os únicos cinco da apelação mais top, a Premier Cru.

Na margem direita temos Petrus, que nem é classificado, mas que seu nome não precisa de apresentações. Essa classificação foi criada por Napoleão III, para a Exposição Universal em Paris em 1855.

Na margem esquerda a predominância é a varietal Cabernet Sauvignon, como já mencionei, e, no blend é acrescentada a Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec ou Carmenère, dependendo do produtor. Cada um com sua receita mágica! O cascalho no solo faz com que a drenagem de água seja favorável para as raízes, mas, ao mesmo tempo, esta tem que alcançar uma profundidade maior para os nutrientes da terra. Isso faz com que as uvas fiquem menores, mais concentradas e com maior complexidade. Em termos de clima, a margem esquerda é mais fria, por sua proximidade com o Oceano Atlântico, e isso ajuda a manter a acidez da uva garantindo um amadurecimento, ou envelhecimento em garrafa, mais longínquo. Por causa da mesma razão, estes são menos agradáveis de beber quando são jovens. Grandes nomes: Château Lafite, Château Latour, Château Mouton-Rothschild, Château Margaux, Château Haut-Brion e em Sauternes Château Yquem, Château Climens e Château Rieussec.

Na margem direita, a varietal predominante é a Merlot com a opção de Cabernet Franc no seu blend, Cabernet Sauvignon e, menos comum, a Malbec e Petit Verdot. O solo é rico em argila e calcário. O calcário faz drenar rapidamente a água, mas, a argila ajuda a mantê-la na profundidade, ajudando nos períodos mais quentes de verão. Isso é primordial pelo fato de que nesta margem não chegam as correntes marítimas do Atlântico, que ajudam a esfriar a margem esquerda e, se dissipam não alcançando a margem direita. Uma tem ventinho, a outra argila. Mas a argila ajuda a raiz e, como o calor não se dissipa, as uvas amadurecem mais rápido e tem menos acidez.

Essas características proporcionam vinhos mais macios, ricos e de maior aceitação ao paladar quando jovens. Sua concentração de uvas, que em alguns casos parece simples em estrutura, em outros atinge uma evolução aromática muito complexa e feliz, felicíssima, como em vinhos como Petrus, Cheval Blanc, Le Pin, Château Ausone, Château Angelus e Château L’Évangelie.

Mas em qual investir? Se tiver interesse neste tipo de investimento, minha dica número um é fazer uma degustação entre alguns rótulos da margem esquerda e da direita. Isso facilita o entendimento de escolha de investimento:

1- Quero investir unicamente pelo retorno;
2- Quero investir pois penso a longo prazo e os vinhos que gosto são da margem esquerda mas, só gosto deles envelhecidos então tenho que comprar agora porque o valor de um envelhecido é muito valorizado;
3- Quero investir a longo prazo mas também quero beber um vinho maravilhoso e não preciso esperar 20 anos.

O investimento pode ser financeiro, emocional ou os dois. No caso de vinhos, é um investimento de estilo de vida, gosto, portanto, invisto. Tempo, dedicação, energia, dinheiro, mas, acima de tudo, são os momentos que serão criados em torno desse investimento. Margem direita, esquerda, em cima ou embaixo, no final é a alegria no coração por poder proporcionar, e receber também de quem proporciona, estas emoções afinal, tudo vale a pena se a alma não é pequena, certo Fernando Pessoa?

Tchin tchin

Carolina Schoof Centola é fundadora da TriWine Investimentos e sommelière formada pela ABS, especializada na região de Champagne. Em Milão, foi a primeira mulher a participar do primeiro grupo de PRs do Armani Privé.

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