A redescoberta do eu

Morsa Images/Getty Images
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A maturidade nos mostra que é possível construir uma nova persona, mais leve e sem tantos apegos com um passado que não queremos mais ter compromissos

No pequeno conto “Perguntais-me como me tornei louco…”, o escritor e poeta Khalil Gibran descreve a libertação de um homem das suas máscaras. Ele conta a trajetória do protagonista, que acorda e vê que as sete máscaras que ele havia confeccionado e usado durante a vida tinham sido roubadas. Desesperado, ele sai pelas ruas gritando “malditos ladrões” que tinham lhe roubado as máscaras.

Um garoto em um telhado grita “É um louco!”, e o protagonista ao olhar para o telhado recebe a luz do sol pela primeira vez em sua face nua. Em um transe, ele grita: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”. E, assim, se torna um louco.

Carl Gustav Jung, psiquiatra, psicoterapeuta e fundador da psicologia analítica, criou o conceito de individuação. A individuação consiste em o indivíduo alcançar sua singularidade profunda. Segundo Jung, a individuação ocorre na meia idade, que para ele se dava aos 30 anos, quando o homem, após construir sua vida de relações, volta-se para seu mundo interno na busca do verdadeiro eu.

Em 1875, Jung nasceu na Suíça. Gibran nasceu oito anos depois, no Líbano. Aos 13 anos, Gibran mudou-se com a mãe e os irmãos para os Estados Unidos. Assim, é pouco provável que Jung tenha influenciado Gibran, entretanto, é provável que os dois tenham sido influenciados pelo Zeitgeist, ou espírito da época. Uma época em que a sociedade ditava com enorme rigor como os indivíduos deveriam se comportar.

Porém, mesmo hoje em uma sociedade mais liberal, vamos precisando construir máscaras ao longo da vida. Ainda na infância, precisamos assumir papéis que nos tornam aceitáveis para os colegas de escola. Na adolescência, precisamos nos adaptar aos grupos a que escolhemos pertencer. No trabalho, precisamos construir o eu profissional. Precisamos assumir o papel de marido, esposa, companheiro ou companheira, de pai ou mãe e, assim, vamos assumindo papéis ou máscaras ao longo da vida.

Não sei se é possível viver com a face nua a que se referiu Gibran ou, como falava Jung, o verdadeiro eu. A própria psicoterapia junguiana já não é tão ortodoxa nesse sentido. Porém, quanto mais longa a nossa vida, mais difícil é conviver com as máscaras construídas ao longo dela.

Toda mudança tem custos. Assim, é muito mais fácil deixar a vida no piloto automático ou, como no ditado popular, “deixar tudo como está para ver como é que fica”. Contudo, as mudanças também podem trazer grandes melhorias na vida daqueles que decidem pagar o preço de mudar.

Quando a expectativa de vida era de 60 anos, a equação entre o preço de mudar e o benefício que poderia ser colhido com a mudança tendia para a manutenção do status quo. Só que agora, quando alguém olha para o seu próprio futuro, tem um horizonte muito mais amplo. São muitos anos pela frente e o custo de viver sustentando uma persona que não lhe cabe mais se torna muito elevado.

A nossa persona é a forma como queremos ser vistos pela sociedade, ela é a forma como nos relacionamos com o coletivo e como o coletivo nos vê. Assim, não se trata de mudar nossa essência ou aquilo que realmente somos. Mas, se trata sim, de se permitir ser quem as personas velhas escondiam ou, como disse Gibran, é deixar o sol banhar a nossa face nua.

Como não sou poeta, não tenho o sonho de que seja possível viver em sociedade sem nenhuma máscara. Elas são necessárias, pois poucos suportam o preço da loucura. Desse modo, não se trata de abandonar, mas sim de questionar nossos compromissos morais, sociais e culturais de outrora.

Acredito que a maturidade nos mostra que é possível construir uma nova persona, mais leve e sem tantos apegos com um passado que não queremos mais ter compromissos.

Jurandir Sell Macedo Jr é doutor em finanças comportamentais, professor universitário e, desde 2003, ministra na Universidade Federal de Santa Catarina a primeira disciplina de finanças pessoais do Brasil. É autor de inúmeros livros sobre educação financeira e tem pós-doutorado em psicologia cognitiva pela Université Libre de Bruxelles. Escreve sobre Finanças 50+ sempre às quintas-feiras. Instagram @jurandirsell E-mail [email protected]

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