Quem diria, travestida de embalagem, a mandioca está cada vez mais em alta

Divulgação/Oka
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Embalagens de mandioca e de outros produtos do agro são frutos da pesquisa baseada na nanotecnologia

Do consumo ligado às classes mais pobres da população, ela já foi alçada ou é iguaria da alta gastronomia em restaurantes badalados, como os paulistanos Tordesilhas, DOM, e mais tantos outros, país afora. Agora, a mandioca, aipim, macaxeira, maniva, uaipi, castelinha – vai a mais de uma dezena as suas denominações – passa de alimento ligado estritamente às raízes da cultura alimentar brasileira, a uma nova e não menos nobre função: servir de embalagens diversas, sustentáveis e que chamam a atenção do consumidor.

Suportado pela pesquisa fina em nanotecnologia, o uso da mandioca como matéria prima na substituição do poluente plástico, subproduto do petróleo, é um movimento sem volta. A raiz mais popular da culinária brasileira faz parte de um pacote no qual também estão embalagens fabricadas a partir de milho, cana-de-açúcar, fibra de coco e até cascas de hortifrutis, como o maracujá e o pimentão.

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O mais recente movimento nesse sentido veio do iFood, empresa que tem apostado em um modelo de negócio além da entrega de comida pela internet. No final de março, foi apresentado o iFood Regenera, um plano ambicioso para mitigar impactos ambientais. E o que a mandioca tem a ver com isso? “As ações focadas em sustentabilidade já vinham sendo criadas desde 2019, como a seção de embalagens sustentáveis no iFood Shop, dedicado aos restaurantes. Com o iFood Regenera, só aceleramos o processo natural da empresa, com opções de itens feitos com materiais produzidos a partir de mandioca, cana-de-açúcar, papel e amido de milho”, afirma Natalia Santana, head do iFood Shop.

De acordo com a executiva, o iFood registrou aumento na quantidade de fornecedores de embalagens sustentáveis para o iFood Shop, marketplace da foodtech que garante itens, insumos e produtos voltados aos parceiros. O objetivo é incentivar o uso de opções menos agressivas ao meio ambiente. Para isso, a empresa está engajando mais de 18 mil restaurantes, até agora, na causa de zerar o plástico.

No “Big Brother Brasil 2021”, que terminou ontem (4), essa embalagem de mandioca foi divulgada e apresentada ao público. E fez muito sucesso nas redes sociais, ao mostrar uma das participantes mordendo a embalagem para saber se era ou não comestível, depois de ler no rótulo a mensagem “feita de fécula de mandioca”. Parceira do iFood na empreitada em popularizar esse tipo de embalagem, a Já Fui Mandioca é uma empresa brasileira especializada no uso da fécula da raiz para a fabricação de seus produtos. “A ação no BBB foi muito importante para demonstrar para um grande público que existem sim alternativas, e que são feitas aqui no Brasil”, diz Stelvio Mazza, CEO da Já Fui Mandioca. “Isso é fundamental para ajudar a tornar o mercado de delivery de comida cada vez mais sustentável.”

MERCADO E PESQUISA EM LINHA

Em rota de crescimento cada vez mais rápido, a sustentabilidade do delivery está na ordem do dia. Os novos hábitos de consumo, causados pela pandemia da Covid-19, fez o mercado global de delivery online de comida crescer 27% no ano passado. Passou de US$ 107 bilhões (R$ 575 bilhões), para US$ 136 bilhões (R$ 731 bilhões) em 2020, de acordo com um estudo de fevereiro deste ano da startup espanhola Comprar Acciones.

Esse gigante mercado busca por parceiras como Olivia Yassuda, responsável pela estratégia da OKA Bioembalagens, empresa que nasceu no Centro de Raízes e Amidos Tropicais da Unesp (Universidade Estadual Paulista), no campus de Botucatu (SP). “Hoje, muitas empresas já estão nascendo com DNA alinhado à sustentabilidade verdadeira, com produtos de alto impacto social e baixo impacto ambiental e assim buscam embalagens que sejam coerentes com seu produto, seja na área agrícola, alimentícia ou bens de consumo em geral”, afirma Olívia.

Divulgação/CodevasF
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Raiz tem sido objeto de pesquisa de empresas e também instituições, entre elas a Embrapa

O mercado global de embalagens plásticas é gigante e é nessa seara que os produtos biológicos trabalham para capturar valor. De acordo com o relatório Flexible Plastic Packaging Market, publicado pela Markets and Markets em outubro do ano passado, o mercado global de embalagens plásticas flexíveis está projetado para crescer de US$ 160,8 bilhões, em 2020, para US$ 200,5 bilhões em 2025. Aqui no Brasil, uma pesquisa sobre o potencial doméstico na Mercado Livre, de fevereiro deste ano, mostra que em seu market place a busca por produtos sustentáveis cresceu cerca de 55% entre 2017 e 2020.

A pesquisa tem sido fundamental para aumentar a oferta de tecnologias destinadas à produção de películas biodegradáveis, à base de substâncias naturais, entre elas a mandioca. Esse caldeirão é objeto de estudos de empresas privadas, mas, principalmente, de instituições como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) que corre contra o tempo. A Rede AgroNano (Rede de Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio) reúne cerca de 160 pesquisadores, em 14 unidades da Embrapa e 39 outros institutos de pesquisa ou universidades, e dela já saíram inúmeros estudos. No caso das películas comestíveis, a partir de frutas e legumes – e que a participante do BBB poderia comer tranquilamente -, as pesquisas já duram mais de duas décadas e continuam sendo aprimoradas.

A busca é por produtos, como as embalagens da Já fui Mandioca, que utilizam 100 vezes menos água para serem produzidas e que se transformam em adubo, em até 90 dias. Ou tecnologias de processamento mais rápido, por exemplo, com o uso de aditivos para diminuir o tempo da fabricação das embalagens. Mas, principalmente, busca-se por produtos totalmente biodegradáveis para dar resposta a um dos maiores pesadelos da humanidade: o acúmulo de lixo.

Embalagens plásticas podem levar de 100 a 400 anos para se deteriorarem na natureza. Estudos da ONU (Organização das Nações Unidas) e do Banco Mundial, mostram que 1,4 bilhão de toneladas de lixo são produzidas anualmente no mundo. Em dez anos serão 2,2 bilhões de toneladas anuais e, se o ritmo for mantido, em 2050 serão quatro bilhões de toneladas de lixo urbano, por ano. Embalagens, como as de mandioca, podem contribuir para que essa conta macabra não se realize.

 

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